sexta-feira, 8 de março de 2013

O Dia da Mulher e a Hipocrisia nas Redes Sociais


Vi gente comentando nas redes sociais coisas das mais diversas sobre o Dia da Mulher. Uns contra, outros a favor. Outros ainda celebrando que agora também existe um Dia do Homem, como se historicamente ALGUM homem tenha sido discriminado ou oprimido PELO FATO de ser homem... aiai...

Só sei que essa data, para mim, não significa um mimo a mais ou a menos, o recebimento ou não de uma rosa, mas a lembrança das inúmeras lutas das mulheres ao longo dos anos por IGUALDADE entre os gêneros. Graças a essas lutas, hoje podemos estudar, trabalhar e votar, apesar da ainda persistente jornada dupla e da violência doméstica que ainda continua vitimando mulheres de todas as classes sociais, em diversas regiões do mundo.

É hipocrisia dizer que tudo isso já foi superado. Que essas feministas não passaram de umas "sapatões tresloucadas" (ah, o eterno preconceito)...

Por isso digo: a luta pela conquista de direitos e políticas públicas para a igualdade de gênero e o fim da violência contra a mulher exige mudanças CULTURAIS e a superação do MACHISMO (sim, ele ainda existe, pasmem!) em nossa sociedade e que se manifesta nas mais variadas formas, seja NO PLANO DA LINGUAGEM, NAS RELAÇÕES DOMÉSTICAS, ou, ainda, NA EXPOSIÇÃO MIDIÁTICA DO CORPO FEMININO como mero objeto de consumo.

Por tudo isso, ACEITO os parabéns em nome de todas as mulheres que me antecederam nessas lutas. E espero que a data enseje uma reflexão sobre todas as outras instâncias da vida familiar, social, política e cultural. Que renove o ânimo de homens e mulheres para combaterem as injustiças e a opressão. Afinal, a luta por uma vida digna para todOS e todAS é sempre uma tarefa inacabada e incessante.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Alma-vidraça


Durante muito tempo achei que a transparência fosse uma das coisas mais extraordinárias que há em mim. Da minha janela, podia ver o mundo nas suas cores mais nítidas, bem como podia ser facilmente alcançada por todos.

Hoje, a vulnerabilidade me faz repensar. Talvez eu estivesse errada e já não haja espaço para o que é cristalino. Talvez ainda haja tempo de colocar um tom que seja de fumê nessa alma-vidraça...

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Hora de percorrer VELHOS caminhos

Às vezes passa. Como tudo nessa vida passa. Até mesmo a vontade de se entregar ao novo, de fazer diferente, de experimentar. E quando tudo isso cede, se esvai, quando já não sobra a curiosidade, a alma grita com necessidade de resgate. Um resgate que a gente nem sabe bem do quê. Talvez uma saudade latente de quem a gente já foi e achou que nem era mais. De retomar um blog deveras esquecido. De se pegar soltando em alto e bom som a risada infantil que a gente julgava haver perdido no meio da frieza do mundo adulto que nos cerca e que havia nos cooptado sem que a gente sequer percebesse. 

Resgatar o arrepio e a gargalhada. O escrever sem pressa e sem obrigação. Só o que os dedos vão digitando, quase que por si sós, sobre o teclado. O contemplar. O simples observar. Das coisas, da natureza, das pessoas e seus detalhes, tão cheios de nuances que até bem pouco nos passavam despercebidos. O ler que não é o estudar, mas o se divertir. O se re-encantar, re-inventar, a partir do passado, do presente, do agora, desse mesmo segundo. Sem futuro. Sem expectativas. Sem cobranças. Sem satisfações a serem dadas. Sem nada.

Um simples desejo de usufruir. De retomar coisas inacabadas, amizades que um dia já foram estreitas, sabores que esquecemos. Uma vontade latente de percorrer as mesmas e já conhecidas estradas, observando as mudanças que surgiram ao longo do caminho. As flores que cresceram nas margens. As que murcharam também. 

A inquietude de sempre, com um quê de reviver. A ansiedade de ocupar espaços já conhecidos, mas de maneira menos previsível. Apreciando os prazeres cotidianos.

Parece que chegou a hora. A MINHA hora. Aquela hora em que a gente SE retoma, SE reinventa, SE redescobre. 

Que as antigas estradas tragam novos rumos! Ou não...

segunda-feira, 14 de março de 2011

Essa conta depois a gente acerta



Diz o senso comum que com tudo na vida a gente se habitua, para o bem e para mal. Para o que é ruim, para o que nos desagrada, demoramos a nos acostumar, mas hora ou outra estamos lá, fazendo roboticamente o que é esperado que façamos, seguindo as regras que nos são impostas e também as que nos impomos. Nos acomodando. E os dias vão correndo, quase iguais.

Mas há vezes em que o espírito da inquietação revolve a nossa alma e a gente se indaga, pra que tudo isso? Pra que tanto medo, tanta conformação, tanta rigidez? Não se atrase. Não coma demais. Se exercite. Esteja bem informada. Cumpra os horários. Seja boa. Profissional, mãe, mulher, cidadã. E assim vamos levando essa vida morna, politicamente correta e sem sal.

Deveres demais. Acertos demais e pouco ou nenhum espaço para errar. Mas será que a gente nasceu mesmo pra se conformar? Pra ver os dias praticamente se repetirem ao invés de misteriosamente se descortinarem?

Hoje lembrei de algo muito simples e que não faço há muito tempo, esquecida que sou do quanto sou jovem e do quanto ainda posso ser. (Porque há tanta gente com mais anos, porém menos idade do que eu...) Ver o sol nascer, depois de uma noite bem desfrutada de pura e boa boemia.

Tá decidido. Vou desfrutar dessa noite. Talvez tome gosto e desfrute de outras tantas mais. E talvez ainda o tempo venha me cobrar com rugas as noites mal dormidas e também as bebidas. Que cobre. Eu peço uma saideira e mando fechar a conta. Pendura ai que depois a gente acerta!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O viajante





Na cadeira de balanço o embalo era alto, fazendo os cabelos loiros da menina balançarem ao vento. Os pés não alcançavam o chão e ela, de olhos fechados, viajava nesse meio de transporte só seu. Bogotá, Teerã, Paris, Marrakech, Cambera, Barcelona, Cairo... Cada visita à casa do avô a levava a um destino diferente no mundo.

Ele, que pouco saiu do Ceará, a fazia viajar como nunca ninguém mais nos anos vindouros soube fazer. Enquanto a menina balançava, cerrava os olhos e ouvia a doce voz do avô relatando com todos os possíveis timbres as curiosidades e descobertas desse novo mundo que ganhava detalhes e nuances surpreendentes naquela voz.

Repetidamente o avô dizia: o homem culto há de viajar, ou ler. Com o dinheiro curto, com 12 filhos para criar, ele lia. Vorazmente. Foi através das suas leituras e do seu amor por mim que eu dei a volta ao mundo.

Foi por meu amor e gratidão a ele que nunca mais voltei a sentar naquela cadeira.

Sem sua presença, minhas viagens tornaram-se outras. Mais “reais”, porém certamente menos felizes e mais vazias.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O silêncio e seu destino



Um estrondo. Um cimento que apara firme e cruelmente um corpo que cai das alturas. Um barulho de doer os ouvidos e a alma. Um fato. Sonoro. Todos acorrem e conferem o cimento manchado, porém intacto. Agora todos pensam numa só coisa. Na vida que o cimento roubou brutalmente.

Os fatos são sonoros. Uns mais, outros menos. Os silêncios, no entanto, nos passam despercebidos. O silêncio que ela fez dias a fio deveria comunicar. Sua missão não cumprida era essa. Era na verdade um grito, um pedido de socorro que a alma cansada não era mais capaz de ecoar.

Mas ninguém percebeu.

Marido, vizinhos, colegas. Ninguém. É que a dor, essa dor cotidiana que as pessoas carregam, não sai no jornal, não atrai atenção.

Cegos e surdos diante da exaustão de fatos que se sobrepõem continuamente, ignoramos essas dores. Até mesmo as nossas. As soterramos. E se alguém nos busca com dores até semelhantes, em geral adiamos, não lhes conferimos importância.

Por isso, ela preferiu tornar-se mais uma a lotar os consultórios.

Até aperceber-se do óbvio. O ouvinte pago não basta. É preciso mais. É preciso gritar essa dor presa, sufocada, porque o silêncio, esse companheiro indesejado, pode até não importunar o próximo, mas a ela molesta violentamente.

É um silêncio que vem do seu íntimo e que é mais forte que ela, um pedido de ajuda preso na garganta.

Um silêncio que apenas o cimento, seu destino, foi capaz de romper.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Protagonista

Amigos de conversas banais. Por vezes nem tanto. Certa vez ela chegou a comentar um fato íntimo que lhe embargou a voz e marejou os olhos. Ele não resistiu. Tascou-lhe na boca o beijo que há tempos ensaiava. Afinal, ela era tudo em que pensava.

(Congela-se a cena)

Ela, um tanto atônita, recolhe suas coisas, se despede rapidamente, mal trocando palavras. Ele permanece ali sentado, paralisado.

Na vez seguinte em que se encontram, mal se olham. Como se uma ventania houvesse varrido de todo a cumplicidade que antes vinha aos poucos se desenhando entre os dois. Toma fôlego e se aproxima: “Te assustou o meu beijo?”

- De jeito nenhum. É que não foi apropriado.

Apropriado? Ele sempre ouviu dizer que beijo a quem se ama não se pede. E, portanto, olhou-lhe com aquela interrogação expressa nos olhos. No mesmo instante ela sacou da manga as respostas que ele esperava, embora fossem para ele tão vazias de sentido. Eram adultos, vários relacionamentos anteriores, não havia fato no mundo pelo qual ele entendesse que um beijo exigia um protocolo. Era um beijo e só. E um beijo de amor, algo que não se contesta, que não se recusa, e muito menos que se pondere sobre.

- Não foi o beijo em si. Muito menos queria que você PEDISSE o beijo. Só tem que ser no seu momento. É o momento que chama o beijo. Um beijo não invasivo, porém firme. Que expresse quem você é. Que, por meio dele, eu saiba que é você quem eu quero como protagonista da minha vida, verdadeira novela mexicana.

- Tudo pra você é complicado, não é?

- Nem tanto. Em cinco minutos te explico:

O protagonista tem que ser gentil e educado, sem me entediar. Não abrir a porta do carro, eu mesma sei abri-la. Tem que ter pegada, mas nunca me fazer desconfiar que é cafajeste. Ser romântico, mas nunca ao ponto de me mandar um “carro de som com homenagem”. Românticos não podem ser bregas. E esse é um erro comum e fatal.

Ser presente, mas vez por outra ausentar-se. Homens grudentos podem ser os piores. Deve ser engraçado, sem contar piadas prontas. Aliás, piadas são, em geral, péssimas, e, se você não é comediante, resguarde-se. Precisa gostar de viajar, ler e se cuidar, mas não pode gostar de modismos. Nem muito arrumado, nem bermudão com chinelos para tudo. Em hipótese alguma pode usar chapinha no estilo “colírios da capricho”.

PRECISA acreditar em mim, mesmo nas mentiras. Sim, sem elas relacionamento algum perdura. E o mais importante. Para ser protagonista, não pode se repetir. Há de se reinventar.

Não me mande rosas, muito menos vermelhas. Bombons e cestas de café da manhã também são dispensáveis. Diferente do que dizem, o pior de tudo não é o desamor. É o tédio!

Terminada “a aula”, ele lembrou-se imediatamente de Fábio Júnior, mas jamais poderia dizer isto a ela, seria cafona: “Sou homem maduro, mas na sua frente, não sou mais que um menino”.

Topou o desafio e deu-lhe um beijo. Dessa vez confiante. Afinal, tinha que ter a postura de um protagonista.